Ângela Vasconcelos
Autora e Escritora


Portifólio

Ângela Góes
Poeta e professora
Sobre a Autora
Ângela Maria Vasconcelos Sampaio Góes é contista, romancista e escritora de Literatura infanto-juvenil em Cametá. Livros publicados: "Quando o desenho vira água" (Literatura infanto-juvenil); " Olhares Atravessados" (Coletânia de contos); "A fotografia de Laura - Quando a vontade ama" (Conto); "Única cotovia - Amor" (Conto); "O enigma da palavra: a metapoesia da Paulo Plínio Abreu" ( Estudo crítico); "Toda Literatura do Marajó Soure - Ilha do Marajó - Pará 1903 - 1904." (Organização); "Linguagen & Educação na Amazônia - faces e interfaces de pesquisa. Vol. 2" (Apresentação). Ganhadora do prêmio internacionalde literatura "Mulheres das Letras". Possui cinco obras literarias inéditas e escritas, ainda não publicadas. Profa de teoria literária, literaturas de língua portuguesa e Literatura Infanto-juvenil da UFPA no CUNTINS - Cametá. Doutoranda do PPGL UFPA. Coordenou projetos de extensão na área de Performance Poética e Contação de Histórias na UFPA voltados pra formação de leitores em Cametá. Representante, ao lado de Helio Vasconcelos França Góes, da Editora Lendoas em Cametá. Membro da Academia Literária Cametanse.
Obras

Se posso escrever você comendo pão com manteiga dentro do espelho? Olhe só para suas mãos inteiras e me diga se antes de amanhecer já não tinhas deixado a palavra ganhando este espelho como quem dorme apanhado por um silêncio, há quantos homens ouvido como véspera de voz em tudo? Foi acordar de madrugada pra desconfiar que o quarto tinha ficado maior, que maior que o medo de ascender a luz era o medo de acordar e te ver aí, bem a minha frente me olhando, como se me olhando, também dissesse que eu poderia estar aí.

Não era uma vez, mas, mesmo assim Aninha resolveu um dia me apelidar de Caderno de Desenho. Na verdade, eu sou um caderno de poesias que sempre soube que caderno de desenho não tinha linha. Naquela época, também não levava jeito para caderno de português, porque os cadernos de português de Aninha eram cheios de tarefas que precisavam da correção da professora.

Nada está fora do lugar. A multidão está do outro lado do portão e eu estou aqui onde ela esteve pela última vez pendurando uma fotografia de quando era jovem na parede. Estou ajeitando a corda no armador de rede aqui da sala. Não vai doer muito. Dói mais não poder sair. Já tirei todas as medidas do meu pescoço. O pescoço dela tinha o mesmo tamanho do meu. Daqui a pouco coloco a corda e me fixo nesta parede para sempre. Vou ao encontro de Laura sem nunca precisar deixar esta casa, o jardim e as nossas roseiras... Não mais me chamarão de Laura e a multidão desaparecerá aos poucos sem ao menos abandonar o portão.

Ele tocou os cabelos dela e ela quis muito não abrir os olhos que você ouvia abertos no instante em que se fechavam. Ele falava o que você supunha, enquanto ela sentia o que você havia escolhido para não dar. Ela dava a ele aquele som todo que você sonhava poder gostar, quem sabe um dia, de tanto se deixar ficar olhando.

Sofia tinha 12 anos e uma vontade imensa de cortar os cabelos. Afinal, era bem difícil conciliar os cuidados com a cabe-leira grande que a mãe lhe exigia, sempre que acordava, e com os fios de Mágico. Ele Era um emaranhado de linhas, meio soltas, que a menina levava para onde quer que fos-se, desde pequena.

O
lhou para o alto da árvore e avistou a goiaba muito madura. Pegou uma vara, tentou arrancá-la, mas percebeu que em um lado da fruta havia um orifício escuro. Sentiu um estranho desejo de mudar o curso das coisas e começou a imaginar o poder que tinham as pessoas sem malícia, mesmo quando eram lesadas por outras pessoas. Enjoou. A fruta bichada no alto da árvore parecia-lhe terrivelmente bela! Era o que ela mesma poderia ter sido se não tivesse perdido o amor próprio em algum momento da vida.

Não sei quem será você que vai ler esta carta quando eu definitivamente finalizá-la, colocá-la num envelope lacrado e a plastificar do mesmo modo que são plastificadas as carteiras de identidade. Lembrando que este mesmo envelope será colocado dentro de um saco plástico com ar para que possa boiar a deriva. Não sei o que você vai achar desta estranha forma de protestar contra os meus canários mudos e contra o meu medo de se entregar à chuva. Também isto não importa! Se eu não escolhi ninguém em especial para ler esta carta é porque ela não é de um náufrago. Esta carta é de alguém que estendeu a mão para todos os náufragos que conseguiram boiar até a superfície sem inchar.

Cheiros colossais
Do que já não se pode guardar
Com sons aéreos
Meu nome e suas visitas
O que olha para lá
Só pela asa

Como eu não estive lá, naquele dia em que começava a história de uma mulher e de sua difícil vontade de ser todas as coisas, não sei medir sua dor, a dor da menina, a dor do menino e os intervalos da música que tornaria cada um deles, depois desse dia, seres responsáveis pelo mundo e por suas escolhas. Ela partiu dizendo que voltaria e voltou... A menina e o menino ficaram como pessoas que jamais esqueceriam a importância de um ir com dor nos olhos para um voltar com amor nos gestos. Nas origens de seus olhos molhados e das horas que a fizeram mulher, a mãe começava a mostrar que, às vezes, é preciso partir para não partir-se de tudo e todos.

Voltou da rua, entrou pela porta da sala e ainda que lhe dissessem que chegara em casa, ainda assim não acreditaria. Não poderia nunca voltar, isto sim sabia. Se voltasse, quebraria as duas pernas e não conseguiria mais andar. O lugar lhe era familiar, os móveis coloniais guardavam um cheiro de informações de outros séculos, tinham sido de seus tataravôs. No grande corredor que dava acesso aos quartos havia um grande sacrário e muitas fotografias antigas espalhadas pela parede.

O tempo e a mulher anunciaram a primeira forma de cumplicidade humana. Senhor da beleza que lhe faltava, o tempo deitou-se com a mulher e inspirou-lhe o tear... Embora nunca pudesse prever o nascimento do amor, logo nasceram as horas que nunca haveriam de retornar à vontade dele. Senhora das teias, a mulher tomou as horas para si para que o tempo precisasse dela quando quisesse nascer de novo.

O que estou procurando? Vim te procurar! (eu disse). Lembro que foi esse – o minuto - em que toda aquela água começou a crescer dentro das minhas mãos junto com as minhas longitudes. O rio! O grande rio estava lá! Desde sempre, tão novo e tão mesmo, que eu me surpreendi com tudo o que poderia ter, quase, deixado de perceber se não me permitisses o olhar em movimento em torno da forma que tu imaginaste ainda não ter sonhado. Tu disseste:

Tinha 66 anos inteiros e uma absoluta falta de segredo. Os dias pareciam lhe exigir quase nada, aposentado, pareciam necessários para que nada deixasse de ser o que de fato era: Um homem! Tal era a forma simples de se portar, que nem os vizinhos, nem a esposa, nem os filhos já adultos e morando em outras cidades desconfiaram de sua permanente vontade de fechar-se em si mesmo para procurar sua dor original.

No livro em minhas mãos pulsa como se a vida estivesse preste a arrebentar, as histórias que aqui são descritas falam de pessoas que buscam explicações para seus desconcertos. Aqui se fala de encantamentos sentidos após a angústia do vazio banhando em muitas águas. A palavra apresenta-se em movimento, ela escapa das folhas como um ser alado e no silêncio das coisas nos mostra a pulsação da vida se (trans)formando.

Ele saiu da rocha como quem abandonou sua imagem no espelho e descobriu o calor do sol. Quente e estranho, o sol foi desde o primeiro contato com o ar livre, seu coração. Não era para ser assim, seu estado de ser da rocha sempre tinha sido bom... O problema era apenas aquela curiosidade pela claridade que, embora não compreendesse, era seu maior desejo. Foi por isso que tinha resolvido, há muito tempo atrás, começar o projeto que o levaria à superfície.

Nas vozes das duas sereias que o observavam sentadas na campina, não vinham de um tal monte de ossos resultantes de corpos em decomposição, vinham sim de doces seres que deixavam-se flutuar em água corrente como se evocassem o fluxo umbilical do inevitável destino do menino-marinheiro. Diante da total insignificância das funções que poderiam ter o canto das sereias, lá estava ele! Inteiro e abrigado das terríveis tempestades que nunca lhe seriam maternais.





